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Ressonâncias entre palco e plateia

Coletivo Improviso propõe híbrido entre performance e instalação cênica

Macksen Luiz

Se o quisermos nomear, chamemo-lo de performance. Se o quisermos definir, limitemo-lo a instalação cênica. Se o quisermos integrar, fracionemo-lo em impressões. Otro, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, pode ser tudo isso, ou ultrapassar tudo isso. A necessidade de delimitar a criação exige que se tateie contornos, risquem-se traços que contenham superfícies, seccionemse as partes para armar um todo. O que o projeto de Enrique Diaz estabelece é um híbrido teatral que circula em interpenetrações por palco e plateia como um transportador de relacionamento.

O que se joga para o espectador, pouco mais do que ruídos banais, tão familiares em sua desimportância, é a possibilidade de ponte de ressonâncias, de ecoar a mobilidade do entra e sai, do começar e não acabar, do lançar e retrair. E os meios para tal integração podem ser de variadas origens, concentradas em aparentes arbitrariedades, que, intencionalmente, desconsertam referências e reiteram percursos. Já na primeira cena, uma atriz desenha com palavras o espaço da representação do que não acontece. Aqui é uma sala; aquele, um homem que dorme; isto, um telefonema não atendido; aquilo, uma descrição incompleta; aquela outra, uma indicação de ponto de ônibus. Nada se conclui, não há evolução dramática no sentido narrativo, o próximo quadro se sobrepõe, com a ligeireza da olhadela, à cena anterior. Que pode ter sido interferida pela circulação de um carrinho de controle remoto. O que acabou de ser visto, não deixa tempo para atentar sobre o que se passou.

Diferentes estímulos, de certa maneira baseados no dramático, afinal se encena, ainda que a matéria seja volátil, de um leva e traz de contatos fortuitos. Imagens interceptam situações criadas para provocar o inesperado, tal como a repetição do gesto de transportar cadeiras até que se transforme em um balé de musical. A dramaturgia captura banalidades e amplia o arbitrário como documentário de um momento, do instante de chegar ao outro, da dificuldade de partir da epiderme para alcançar camadas mais densas nas vias comunicantes da existência.

Nesta construção de uma “alteridade performática”, Enrique Diaz procura demonstrar que há uma “capacidade de trânsito entre o dentro e o fora”, e que, tanto um quanto outro, não existe, a não ser pela tentativa de chegar ao semelhante. Nesta teia de intencionalidades, o coletivo de atores mistura histórias próprias, inventa tantas mais, apreende em flashes realidades exteriores, fala de miudezas, desarrumando sequências e lançando inquietação. Os atores – Cristina Moura, Daniela Fortes, Denise Stutz, Enrique Diaz, Felipe Rocha, Raquel Rocha e Thierry Tremouroux – percorrem esse labirinto de contatos possíveis através da tênue fresta de luminosidade que o desejo de compreender o que acontece, no teatro e fora dele, nos invade nestes tempos barulhentos.

Jornal do Brasil, 06 de Maio de 2010

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Otro: Chacal

PARA O OUTRO, CAMINHO /  POR UM OUTRO CAMINHO

Acabo de chegar do sérgio porto. Fui ver a peça “otro”. Fiquei desorientado. Ri e chorei muito. Percebi, como um cego no meio do tiroteio, a marca desse tempo sujeito a todas as tempestades. Não mais as grandes narrativas, chiclete abissal que te espanca agora em 3D. Mas as mínimas histórias, pequenas narrativas pessoais ou sobre outros, tão sem importância como nós. Histórias nascem, crescem e morrem ao sabor das ondas, de corpos trincados ao som de Frank Sinatra. Mundo sinistro. Sem nenhuma utopia ou direção. A vida como ela é. Sem glamour e muitos objetos de cena.

O desespero e a maquinaria desmontada das histórias. O desespero de se inventar sujeito num mundo de verbos intransitivos sem predicados. Não somos ninguém mas sabemos exatamente como inventar uma história. E nos vingamos daquel’outra com agá maiúsculo que sempre nos reservou o papel de fanta-nada. rimos da própria desgraça de não ser e vamos sendo sem grandes planos, mais ligados nos pixels do que no painel pânico de uma História que sempre nos foi negada. E pixel aqui, pixel acolá, vamos juntando os caquinhos e inventando sempre um outro caminho.

Chacal em 02 de maio de 2010
http://chacalog.zip.net

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Começo de novo. Estréia OTRO

Hoje é dia 28 de abril 2010, o OTRO vai estrear amanhã, no Espaço Cultural Sergio Porto. Tem esse texto aqui, que foi o primeiro que eu postei. E reli hoje, depois de muito tempo, e pareceu que ele estava muito impressionantemente ligado ao trabalho, e reli pensando que torço para que o trabalho esteja visivelmente falando das coisas que estão nesse texto:

“…então ele tinha que começar, começou e não parou mais… e começou a olhar e o que olhava colava na retina e dali ele ainda olhava e a retina era o que ele olhava e o que ele olhava estava agora por dentro, refletindo como um lençol de prata, como o nitrato de prata da película do cinema, refletindo e revelando, materializando, atualizando, brilhando… ele olhava e respirava, caminhava e respirava, respirava e olhava… e de tanto olhar se movimentou de outro jeito, do jeito do que ele olhava, ou do jeito que a bandeja de prata segredava que ele se movesse, e era uma invenção, uma invenção que era apenas a flor da devoração que ele engendrara, sem mesmo saber do que estava falando… era uma flor de inocência e de delicadeza, uma flor que devolvia ao mundo a beleza e o delírio dele mesmo, sua incompletude e ignorância, sua pergunta e infâmia…”

E então digo a todos que tudo que tem aí pra baixo é material de referência do trabalho que o Coletivo Improviso está fazendo, que não foi postado pra mostrar nada para ninguém, que servia como forma de diálogo entre as pessoas que estavam envolvidas no projeto. Agora a gente começa a se relacionar com o outro que é esse público, essa gente que vai estar lá no teatro. Então quero começar a jogar nesse blog as impressões dessa experiência. E peço aos colaboradores todos que expandam para dentro desse espaço, para a gente conversar com as pessoas.

O trabalho vem da reunião de pessoas bem diferentes, com experiências diferentes, e foi elaborado inicialmente a partir de residências artísticas com uma série de atores que colaborarm com criações cênicas, saídas para a rua, pesquisa de campo, treinamento e palestras, e foi ganhando uma forma bem múltipla, complexa, com os atores que estão de fato na criação e na performance.

mais, em breve.

Enrique Diaz

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