Ele é também surpreendente por mostrar que o confronto entre a Europa “civilizada” e os índios americanos acabou incorporando ao pensamento europeu a idéia do “outro”. O mundo era habitado sim, antípodas existiam, era uma evidência, assim como a terra é redonda, e dois e três são cinco. Sobre essa constatação era inevitável que se erguesse o edifício de um novo conhecimento científico e filosófico.
06/02/2010
Sou apenas aquela…
“Não cozinho mais, só faço café. Sinto-me muito perto da morte que desejei. Isso me é indiferente, e mesmo o fato de que isso me é indiferente não me perturba. Minha identidade deslocou-se. Sou apenas aquela mulher que acorda com medo. Aquela que deseja em lugar dele, por ele.”
Fragmento do livro A Dor, de Marguerite Duras
04/02/2010
Dançamos?
Agora é hora de uma digressão na qual descreveremos os sentimentos de nossos heróis. Arthur segue olhando os pés, mas sua mente está na boca de Odile e seus beijos românticos. Odile se pergunta se os garotos percebem seus seios movendo-se por baixo do suéter. Franz pensa em tudo e em nada. Ele se pergunta se o mundo está virando um sonho ou se o sonho está virando o mundo.
Jean-Luc Godard, “Bande à part”
Hal Hartley, “Simple men”
Hal Hartley, “Surviving desire”
29/01/2010
memória
Suas memórias sobrevivem a você quando passam a ser as memórias de outras pessoas.
(Pacha Urbano, escritor e ilustrador)
28/01/2010
Forced Entertainment: On Making Performance
An introduction to the working methods of this Sheffield based performance group.
28/01/2010
Cold souls
O ator Paul Giamatti enfrenta uma grande crise existencial durante os ensaios da peça “Tio Vanya”, de Tchecov, e sente dificuldade em separar os dramas do personagem de suas próprias angústias. Seu agente lhe sugere um novo procedimento no mercado, que consiste no armazenamento da alma. O cliente tem a alma extraída, guardada em local seguro e, desse modo, está livre para viver uma existência mais leve. O problema é que sem angústias não existe Tio Vanya – e Giamatti, irreconhecível pela própria esposa depois da operação, decide retomar o espírito removido. Mas traficantes russos se apoderaram da alma de Paul e a contrabandeiam para que a esposa do chefe do tráfico, uma atriz sem talento, possa se dar bem em uma novela.
27/01/2010
de um certo alguém
Thi
22/01/2010
I love you but…
I love you but, you put ketchup on everything.
Eu te amo, mas você coloca ketchup em tudo.
I love you but, you put exclamation marks at the end of every sentence!!!
Eu te amo, mas você coloca pontos de exclamação no final de todas as frases!!!
I love you but, you give yourself nicknames.
Eu te amo, mas você da apelidos a si mesmo.
I love you but, you wear sunglasses indoors.
Eu te amo, mas você usa óculos escuros em lugares fechados.
Mais I loves you but…:
http://www.loveyoubut.com/
22/01/2010
Ser-Coisa: The functional fake object performance
Functional Fake is a multi-facetted project developed from an intuition, based on an apparently contradictory term/word relation which elaborates on a series of relational forms in between ideas of functionality and the ephemeral, as exemplified in the context of everyday domestic interiors and their surroundings. Through the staging of photographic works and occasional performances in the actual space, I am constructing the appearances of a domestic ambient/ambience, but in a stylized manner, where can be seen typical objects as a sofa, a table, a book shelf or a bracket. Their formal and visual features do not look like most of objects alike.
22/01/2010
I got you under my skin
I’ve got you under my skin
I’ve got you deep in the heart of me
So deep in my heart, that you’re really a part of me
I’ve got you under my skin
I’ve tried so not to give in
I’ve said to myself this affair never will go so well
But why should I try to resist, when baby will I know so well
That I’ve got you under my skin
I’d sacrifice anything come what might
For the sake of having you near
In spite of a warning voice that comes in the night
And repeats, repeats in my ear
Don’t you know you fool, you never can win
Use your mentality, wake up to reality
But each time I do, just the thought of you
Makes me stop before I begin
‘Cause I’ve got you under my skin
Cole Porter
22/01/2010
What is everybodys?
Everybodys is a data base and a library, a toolbox and a game creator, a publication house, a score container, a site for distribution and for long term investigatory discussions. It is a platform for the development of tools and content, for research and performance, for exchange and desire.
Everybodys is a collective effort to develop the discourses that exist within the performing arts and to create a platform where this information can be accessed by a wider audience than the practitioners it involves.
Everybodys welcome.
22/01/2010
Ser-Coisa: Cláudia Dias
“Yo estoy en este lado. Para vosotros este lado es el otro lado”.
A partir de objetos que salen de una bolsa de plástico de supermercado, Cláudia Dias nos revela que todos los objetos de nuestro día a día, desde los más esenciales a los más anodinos, tienen algo que “decir” sobre la biografía de nuestro cuerpo. “Visita Guiada” es una reevaluación de la nostalgia y de las complicidades emocionales que establecemos con los lugares, los nombres y las cosas cotidianas.
21/01/2010
Eu Outro
Janfamily is a group of young artists that share a unique approach to life. They explore the things that surround them, and together they create alternatives to everyday routines. Janfamily – ‘Plans for other days’, their first publication, is a manifesto of their philosophy: it is a ‘how to’ book, a list of proposals on how to relate to our own surroundings. By offering solutions to problems such as ‘How to soften a challenge’ and ‘How not to do what you did yesterday’, we are invited to revisit the simple things in life that are often ignored or unnoticed.
Based in London, Jan is a family of artists and designers working in a wide variety of forms. The work they produce is not media-specific but is tied together by a common approach based on personal fascinations. Projects take such different forms as songs, clothes, photography and films.
“This book (Plans for other days) suggests, it doesn’t dictate. It is a list of proposals on how to relate to our surroundings. A manual of moments. It is a life we are living. Being at home, going out, feeling on our own and being together. We look at the simple things that don’t get that much attention and seek alternatives to routines. We alter and take over what we can touch and feel. With everyday interventions and intuition we try to reclaime our lives. We try to come closer, closer to our own lives and to others.”
21/01/2010
Permanência, repetição
“É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo”.
Albert Camus – O Mito de Sisifo![]()
21/01/2010
Entre os muros da escola
Entre os Muros da Escola (Entre les murs), de Laurent Cantet (França, 2008)
por Cléber Eduardo em www.revistacinetica.com.br
A potência da imagem da impotência
Duas características dominantes e poderosas de Entre os Muros da Escola, do francês Laurent Cantet, acentuam a “alta” de certo padrão estético do cinema, legitimado como artístico com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. A primeira característica vinculada a este padrão em alta desde os anos 90 é seu efeito de realidade e autenticidade que, apesar de construído com uma variável de angulações e de distâncias focais, por meio de imagens-recortes colocadas em relação, apresenta seres e ambientes como se eles estivessem à nossa frente, ao vivo, com todas as evidências da construção cinematográfica apagadas pela sensação de estarmos fora da ficção. Pode parecer contraditório, como sempre pode ter parecido no cinema e nas reivindicações de aproximação entre realidade e ficção, mas o mérito de certas ficções, nos paradigmas de avaliação de muitos críticos e espectadores, é nem parecer uma ficção. Há quem chame esses filmes de ficção documental, no sentido de acesso direto à realidade, sem tanta mediação e estilização. A chave não está na transparência da montagem, mas na sintonia de atores com seus espaços e com seus gestos, palavras, roupas e maneiras de se colocarem uns em relação aos outros.
Não se pense, porém, em visão imparcial. Entre os Muros da Escola, é, para bom observador, todo mediado, todo estilizado, mas constrói o efeito de não-mediação. Constrói a impressão de captura de situações que poderiam acontecer (ou acontecem) sem a câmera, exatamente daquele jeito (ou quase), e esse seria um dos seus principais méritos artísticos segundo seus principais defensores. a justa mimese. Parece um contra-senso ver valor artístico na aparente ausência do artista ao encenar a ficção, mas essa aparente ausência do artista é ela também uma construção (e não uma ausência). Nenhum contra-senso, portanto. A questão é superar a mimese justa e lidar com a potência interna da ficção disposta a esconder suas operações de organização do mundo, sua transformação de caos em cosmos, para nos colocar com mais poder e força no mundo mostrado, para colocar esse mundo mostrado como presença no extra-quadro. O extraquadro da sala de aula é a sociedade francesa, que, de forma indireta, faz parte do campo cinematográfico do filme.
Podemos pensar esse realismo como motivo anterior a seus códigos de realização, como uma necessidade de substituição das experiências por suas mediações, quase como uma espécie de boneca inflável para os olhares que, em vez de imagens, assimila a mediação como se fosse a própria experiência não estilizada. Há uma vertente da crítica realista que chega às raias da metafísica.
Em nome de uma celebração da vida e do real “captados” pela câmera, solapam o materialismo e a matéria, atrás de momentos de epifania proporcionados pela vida diante da lente – e não pela vida gerada na tela por uma série de relações lógicas e intuitivas do processo de realização. Os filmes com grande apelo de realidade podem até ser experimentados como alargamento do mundo visível e como estímulo à consciência, à indignação e à solidariedade universalizante, criando zonas de compartilhamento de afeto para além de abismos pessoais e fronteiras nacionais. No entanto, é preciso questionar se essa operação não traz sobretudo um efeito de “carrinho de simba safári”, no qual nos aproximamos de zonas de risco e de conflito sem sermos afetados de fato por esses riscos e conflitos, com o conforto de que sobreviveremos ao desconforto e, ao sobreviver, obtemos uma vitória pessoal por não fecharmos olhos ao mundo, e por sermos capazes de nos emocionar e de nos solidarizar com esse mundo. O realismo sempre traz algo de resignação em suas denúncias da vida, mesmo quando não se denuncia algo concreto e sim o mundo como um estado geral. O que é, faz algum tempo, a modalidade vigente.
A segunda característica dominante e poderosa que citamos no começo é a condensação na sala de aula de uma tensão generalizada entre alunos, facilmente encaráveis como grupo homogêneo por pontos em comum em suas condições na sociedade francesa. Se isso reflete tensões dessa sociedade, não se refere a esse universo de modo mais amplo, preferindo introjetá-lo nos limites concretos de uma escola. Por conta de diferenças de origem, em dados momentos de confronto verbal entre os alunos, eles reproduzem a retórica colonialista, estabelecendo diferenciações nacionais e culturais hierárquicas,
embora estejam em um mesmo contexto social de filhos de imigrantes ou imigrantes eles mesmos – algo que, quando se torna mais visível quem detém o poder de fato, e quem é punível (e quem não), torna-se mais claro e leva-os a uma união circunstancial.A relação entre esse efeito de realidade conseguido com o efeito de apagamento da intervenção ficcional e a condensação de tensões dessa realidade em uma sala de aula multicultural, os tais pontos de maior força do filme, resulta em uma observação sobre a perda do controle sobre as condutas de controle, com imagens nas quais os professores reclamam da perda de suas autoridades ou reagem a essa perda com autoritarismo. É nessa organização de embate de forças internas da classe e dos alunos com a instituição escolar que poderemos localizar a procura da transformação do caos em cosmos com a disposição de se organizar como cosmos o caos sem bulas. Nenhum cosmos com leis e lógicas sólidas é possível em Entre os Muros da Escola. A escola, reflexo ou não da sociedade mais ampla, está perdida. Desorientada, sem a palavra certa. E com um problema indesejável, que tira professores do sério: ensinar quem e para que?
Essas imagens constatam essa perda da autoridade em seu encadeamento, assim como nos mostra a estratégia pedagógica-conciliatória de um professor de francês (Marin, o protagonista), que estimula os alunos a escreverem a partir de seus sentimentos, de modo a melhor acessá-los ou melhor controlá-los pela informação sobre suas interioridades expressas em palavras. Há fortes indicações de um sentimento de impotência e de desorientação entre os professores, assim como um desejo de recusa a qualquer autoridade entre os alunos. Os netos dos colonizados asiáticos e africanos não dizem “sim, senhor”. As tensões estão abertas, sem conciliações, ou com conciliações temporárias. A defesa da língua francesa por parte do professor não encontra ecos entre os alunos simplesmente porque estes têm seu próprio modo de expressão verbal e acham antiquada a língua francesa correta. É um problema cultural que se coloca diante da escola francesa, da língua francesa e do professor de francês, bem maior que o problema social imediato.
A ficção com aparência de não ficção, portanto, é organizada como ficção significante, não como registro da vida, mas sem perder a força de vida de muitos de seus momentos. Estamos diante de um filme que age com a consciência de que o realismo é uma construção da linguagem, não um direcionamento da lente para certas presenças, mas sem perder o efeito de presença aparentemente sem construção. Talvez seja essa a principal opção expressiva de Entre os Muros da Escola, que, por meio de uma procura por pessoas de carne e osso, com sangue a escorrer nas veias e um passado histórico a formatar seus presentes, encontra personagens com notável carga de existência nos momentos a nós mostrados. Carga de existência sem dados e imagens de vida pessoal, de interioridade, de situações para além dos lugares em público de cada ser em quadro. O privado, embora seja caminho de acesso ao entendimento da atitude pública, é recusado. Pelo professor, questionado por sua suposta homossexualidade, e por um aluno, resistente a fazer sua auto-ficção. Só importa quem eles são em público.
A energia interna não tem a ver com fidelidade a algo fora dela. Essa energia está nas presenças dos personagens, nessa capacidade da narrativa de nos colocar em contato próximo com eles e com seus modos de estarem ali, com suas personalidades, vozes e posturas, sem nos dar nada deles fora daquele ambiente, sem nos mostrar nada de suas vidas em casas e em seus bairros, mas também sem desconectá-los de um meio social complexo, que está em suas atitudes e em suas palavras. Portanto, em suas passagens menos fortes e em seus momentos de maior presença, Entre os Muros da Escola precisa, do ponto de vista crítico e estético, ser visto pela construção de seu olhar e, se esse olhar parece empenhado em não se colocar a favor ou contra ninguém, ele também é um olhar cruel ao expor a complexidade por conta da qual não toma partidos. É como se a narração dramática do filme só visse a incapacidade de ver saídas. Seu ponto forte, portanto, está em sua franqueza. Não se trata de uma política da potência, mas uma potência de uma imagem da impotência.
Se a rebeldia escolar era celebrada por Jean Vigo, em Zero de Conduta (1933); e por François Truffaut, em Os Incompreendidos (1959), para citarmos dois filmes de diferentes momentos do cinema francês e da França, aquela era uma rebeldia de meninos brancos contra o tom opressor do sistema escolar-educacional. Desobedecer era uma saída. Na França do século XXI, com a qual lida Cantet, não há mais carga libertaria na desobediência. Em vez de transgressão libertária, que vê a energia potente do caos contra os cosmos, agora nos deparamos com a transgressão caótica, que aproveita a incapacidade de escola e professores de propor um cosmos. Cantet nos mostra assim que, na arte, é possível trabalhar com energia, mesmo quando se mostra a perda da energia diante de determinadas circunstâncias.
21/01/2010
Embate real x inventado
UM INSTANTE DE INOCÊNCIA
nun va goldun
Irã/França (1996/Cor/35mm/78 min)
Em Teerã, um ex-policial procura o cineasta Mohsen Makhmalbaf para cobrar o cumprimento de uma antiga promessa. Dois anos antes, o diretor lhe prometera um papel em seu próximo filme. Na verdade, o primeiro contato entre os dois homens deu-se muito antes, 20 anos atrás, em circunstâncias bem dramáticas. Era o governo do Xá Rheza Pahlevi e Mohsen, então com 17 anos, era um dissidente. Numa manifestação, apunhalou o policial, tentando tomar-lhe o revólver, mas ele se defendeu atirando em Mohsen, que acabou preso e torturado. A Revolução Islâmica do aiatolá Khomeini muda todo o quadro político. Quinze anos depois do incidente, o mesmo policial, agora fora da força, candidata-se a um papel em “Salve o Cinema”. Mas só dois anos depois é que o cineasta decide filmar o confronto entre os dois, desta vez usando atores. Não há vilões, nem heróis: só a tentativa de compreender dois pontos de vista opostos numa situação-limite.
roteiro MOHSEN MAKHMALBAF fotografia MAHMOUD KALAN montagem MOHSEN MAKHMALBAF trilha sonora NADJID ENTEZAMI elenco MIRHADI TAYEBL (policial), ALI BAKHSHI (diretor jovem), AMMAR TAFTI (policial jovem), MARYAM MOHAMADAMINI (mulher jovem) e MOHSEN MAKHMALBAF (diretor)
21/01/2010
Blue Eyed
“It won’t help much to be prepared to face Jane Elliott. This elderly woman will tear down any shield. Even we, the spectators in BLUE EYED, can’t get rid of this feeling of uneasiness, embarrassment, anxiety and utterly helpless hatred when she starts keeping people down, humiliating them, deriding them, incapacitating them. No doubt about this: for three quarters of the time in this documentation Jane Elliott is the meanest, the lowest, the most detestful, the most hypocritical human being hell has ever spit back on earth. But she should be an example for all of us”.
Stuttgarter Zeitung
20/01/2010
may i feel said he
may i feel said he
(i’ll squeal said she
just once said he)
it’s fun said she
(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she
(let’s go said he
not too far said she
what’s too far said he
where you are said she)
may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she
may i move said he
is it love said she)
if you’re willing said he
(but you’re killing said she
but it’s life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she
(tiptop said he
don’t stop said she
oh no said he)
go slow said she
(cccome?said he
ummm said she)
you’re divine! said he
(you are Mine said she)
e.e.cummings
20/01/2010
Se eu fosse eu
Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? As vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fose eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se voce fosse voce, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisonomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
(Clarice Lispector)
20/01/2010
We are all different!
Brian: Look, you’ve got it all wrong! You don’t need to follow me, you don’t need to follow anybody! You’ve got to think for yourselves! You’re all individuals!
The Crowd (in unison): Yes! We’re all individuals!
Brian: You’re all different!
The Crowd (in unison): Yes, we are all different!
Man in Crowd: I’m not.
Another Man: Shhh
(Monthy Python, “A vida de Brian”)

20/01/2010
TEMPO_FESTIVAL
A ‘linha orgânica’ das construções de si (e do fora)
por DANIELA MATTOS em TEMPO_FESTIVAL
As performances apresentadas no primeiro dia do Tempo (tanto a de Fernando Eiras quanto a do Coletivo Improviso), me pareceram lidar com diferentes modos de subjetivação, com espaços de ‘construção de si’. Esses espaços, que interagem, trocam e também constituem o ‘fora’, o mundo, estão diretamente vinculados às poéticas de cada artista.
No processo do Coletivo Improviso as [auto]biografias dos componentes do grupo aparecem como estruturas que se abrem rizomaticamente ao encontro com o outro e com a cartografia imprevisível do mundo, sendo ‘matéria’ fundamental para a produção de sentido e para que seja desenhado o ‘corpo’ do trabalho.
Na ação de Fernando Eiras a biografia, foi colocada numa espécie de fita de moebius com a ficção, criando um espaço contínuo, numa rica e intensa ‘retroalimentação’ entre esses lugares, que me pareceu ter sido reforçada pela fala do artista durante a conversa posterior.
As concepções de construções de si e do fora, do eu-outro no campo extensivo do mundo vem sendo também constantes no campo das Artes Visuais, desde os anos 1960. Tomei emprestado de uma de nossas maiores artistas, Lygia Clark, que tão bem desenvolveu e redefiniu essas questões em sua obra, o conceito de “Linha Orgânica” (algo que seria uma campo de contiguidade entre pintura e mundo, arte e vida), para falar um pouco de minhas impressões sobre o que vi(vi) hoje.
20/01/2010
TEMPO_FESTIVAL
O movimento, a fala e o improviso _18_12_09
por INÊS NIN em TEMPO_FESTIVAL
Pessoas contam estórias em um palco. Arte narrativa, afinal, é o teatro. As falas variam em tonalidade e direção, quando não são diálogos/monólogos e outras maneiras encontradas para se criar uma cena. Aparentemente, é a palavra que define o movimento dos atores em torno de um fio que se desenrola, com lugares imaginários bem demarcados. Tensionado, o barbante também se abre ao público, que caminha então ao centro do espaço e participa, representando as direções nomeadas pela atriz que convida à retrospectiva de uma ação.
Com um dia e algumas horas de delay, falo aqui da apresentação do Coletivo Improviso, processo decorrente da residência do grupo patrocinada pela Secretaria Municipal de Cultura. A partir de demarcações temporais, regras e as estórias que vão sendo contadas, muitas oriundas de experiências feitas pelas ruas do Rio de Janeiro (”escolho um ponto da cidade em que eu normalmente não estaria e, ali, converso com alguma pessoa desconhecida”), a costura vai sendo feita, ora acrescentada de um vídeo ou de uma rádio simulada, como na performance de Alessandra Colasanti.
Dos fragmentos que se fixaram na minha memória se destaca ‘She moves she’, música do Four Tet que reapareceu algumas vezes ao longo do processo, dando início a trechos que, como esquetes, demarcavam novas ações. O grupo declara que o espetáculo trata de reflexões em torno do outro, do reconhecer-se no outro e exercícios em torno do tema; por fim, desse algo que está entre o eu e outro e que pressupõe um rearranjo de todos os modos para sua existência.
Eis, então, a música, que pontua o tempo do espetáculo, em videoclipe preenchido por imagens urbanas arranjadas em caleidoscópio:
15/09/2009
Jean Rouch e a invenção do Outro…
“O ‘outro’ é então, aqui, retirado do seu contexto sócio-cultural imediato e envolvido numa situação extra-ordinária, ou seja, uma situação desvinculada de sua vida quotidiana. Em outras palavras, contrariamente ao que acontece nos filmes etnográficos, que buscam registrar aspectos da cultura observada – aspectos esses que, desconsiderando a dose de pró-filmia, ou seja, o comportamento que resulta da presença da câmera, existente em qualquer documentário, aconteceriam independentemente da câmera –, no filme de improvisação, bem como no documentário-ficção, o objeto do registro não pré-existe à presença da câmera. É esta última que provoca, que instaura a situação a ser registrada”.
11/09/2009
os 3 textos/extratos que li na reunião
De Sanchis Sinisterra, na peça « A Máquina de Abraçar », que Mariana está estreando dia 24, com Marina Vianna, direção Malu Galli e direção de movimento de Denise Stutz.
Uma última… « prótese » racional para nos aproximarmos do mistério. Pelo que sabemos, o ser não nasce sendo. Isso que chamamos de « ser humano », vocês, eu… na condição de pessoas… começamos a ser logo depois de termos nascido… ao nos relacionarmos com o outro, com os outros… Os pais seriam, por regra geral, as figuras primárias desse processo de comunicação que nos constitui como seres, como pessoas, como sujeitos…(pausa) Mas esta comunicação originária não é entre dois, não se produz com um… intercâmbio de informação, com um espaço que um e outro abrem a partir da sua individualidade. Não. A maioria de nós cresce compartilhando uma atmosfera emocional com aqueles que se encarregam inicialmente de nos sustentar. Nos banhamos num… numa espécie de líquido afetivo pelo qual fluem estados mentais, sentimentos, sensações, informação… Essa identidade primordial, quase fusional, com o outro, nos permite, mais tarde, diferenciar-nos sem nos estranharmos totalmente, entendem ? Sermos um, sermos nós proprios, e percebermos o outro como um « outro um », como outro sujeito.
Em busca do outro – Clarice Lispector
Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu ! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza meu melhor modo de ser, meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro, estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.
Trecho de artigo de Günter Heeg sobre o desafio da identidade transcultural
Transcultural Identity doesn’t exist
Todos querem ser felizes. Todos querem fazer parte de alguma coisa. Seja da livre economia de mercado, da sociedade multicultural ou de uma festa pelo mundial de futebol. Dá na mesma. Quando já não mais existe uma participação no trabalho, tem-se que participar de alguma outra coisa, do produto da sensação da própria participação, que também é o proprio motivo. Motivo, atividade e produto, tudo em um. Exigimos por isso a razão última da participação : guerra para todos !
Com estas palavras marciais começa a apresentação do programa da temporada 2006/2007 da Volksbühne, em Berlin. O pessoal de teatro da Volksbühne deve saber do que está falando. Eles que, com a Queda do Muro, foram transpostos da cultura fechada da Alemanha Oriental, sem nunca terem chegado à Alemanha Ocidental, sabem do que se está falando quando se trata de identidade cultural. Esta citação estabelece três pontos :
1) salienta a necessidade antropológica fundamental de identificação com um coletivo ;
2) deixa claro que essa participação em um coletivo pertence a uma praxis da imaginação, que élabora o proprio produto, a identidade coletiva imaginária ; e
3) permite perceber que a necessidade de identidade coletiva não pode ser vista, de forma alguma, como inofensiva, mas acaba resultando, em suas última consequências, em « guerra para todos ». Por que ?
A identidade coletiva cria-se pela prática da « alterização », quer dizer, através d delimitação espacial do que nos é proprio diante do que nos é outro e estranho, médiante a denominação de características de diferenciação e delimitação, como raça, usos e costumes culturais, lingua, etc. O que é identificado como proprio demarca um espaço de dentro ; o outro rejeitado, faz parte do que fiça fora. Essa prática da « alterização » deixa poucas esperanças de criação de uma identidade transcultural, que dependeria justamente da ultrapassagem das fronteiras espaciais entre « dentro » e « fora » e das fronteiras imaginarias culturais entre o « eu » e o « outro ».
To be continued
enrique
11/09/2009
Barthes / Stutz
“Em qualquer lugar desse país, produz-se uma organização especial do espaço: viajando (na rua , de trem ao longo dos suburbios, das montanhas), percebo aí a conjunção de um longínguo e de uma fragmentação, a justaposição de campos ao mesmo tempo descontínuos e abertos: nenhum fechamento, e no entanto sou sitiado pelo horizonte: nenhuma vontade de inflar os pulmões, de estufar o peito para garantir meu eu, para me constituir em centro assimilador do infinito: levado à evidência de um limite vazio, fico ilimitado sem idéia de grandeza, sem referência metefísica.”(Roland Barthes)
01/09/2009
o outro. na escuta.
…então ele tinha que começar, começou e não parou mais… e começou a olhar e o que olhava colava na retina e dali ele ainda olhava e a retina era o que ele olhava e o que ele olhava estava agora por dentro, refletindo como um lençol de prata, como o nitrato de prata da película do cinema, refletindo e revelando, materializando, atualizando, brilhando… ele olhava e respirava, caminhava e respirava, respirava e olhava… e de tanto olhar se movimentou de outro jeito, do jeito do que ele olhava, ou do jeito que a bandeja de prata segredava que ele se movesse, e era uma invenção, uma invenção que era apenas a flor da devoração que ele engendrara, sem mesmo saber do que estava falando… era uma flor de inocência e de delicadeza, uma flor que devolvia ao mundo a beleza e o delírio dele mesmo, sua incompletude e ignorância, sua pergunta e infâmia…
kike











Gilles Barbier




